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Ao som de Hugo Leite

2008-04-06

Entrevista ao site SalsaBraga.com em Dezembro de 2007

Hugo Leite, recente vencedor de melhor DJ 2007 para Portugal, aceitou o nosso desafio e entrou no ritmo do SalsaBraga.
DJ Hugo Leite1 – Hugo, como é que foi o teu primeiro contacto com a música e o que fez torná-la uma profissão?

O meu primeiro contacto com a música ocorreu um pouco tarde, comparado com a maioria das pessoas. Tirando as aulas de educação musical que tive durante o 2º ciclo (5º e 6º ano de escolaridade) nunca tive muitos estímulos para apreciar a música.

Durante a minha adolescência comecei a ouvir mais rádio e a interessar-me pelas músicas que escutava. No entanto, o tempo despendido nos treinos e competições de natação, desporto que pratiquei durante 16 anos, e os condicionalismos sociais inerentes a esta actividade, limitaram a exploração do mundo musical.

Durante as férias tinha oportunidade de ir a discotecas e o interesse pela música e pelo deejaying começou a fazer-se notar. Quando entrei na universidade e reduzi a carga de treinos fiquei com mais tempo para ouvir música e aprender as técnicas de DJ.

A pouco e pouco fui colocando música em festas de amigos. Nessa altura não encarava o deejaying como uma opção para carreira profissional, era uma paixão e um hobbie. Aproveitei as oportunidades que tive para solidificar as técnicas, ganhar experiência e aumentar significativamente a minha discografia até que chegou o momento em que decidi dar prioridade a esta actividade.

Optei por dedicar-me ao deejaying e ao som por este ser uma grande paixão para mim.

2 – O que te fez escolher DJ deste estilo musical?

Quando comecei a despertar para a música desconhecia por completo os ritmos latinos. Escutava rock, pop e música electrónica. Mais tarde veio o jazz e, finalmente, a música latina.

Quando comecei a trabalhar como DJ colocava música electrónica, nomeadamente house. Na altura (e ainda hoje) apreciava muito este fenómeno, minimalista ou não, que constituiu uma fase de aprendizagem da arte e de amadurecimento de sensibilidade de pista.

A paixão pela música latina apenas ganhou protagonismo quando comecei a a prender a dançar. Nesse momento, tudo fez sentido, e a forma como escutava a música latina mudou drasticamente. O facto de me aproximar da cultura latino-americana ajudou-me a compreender a música e, a apaixonar-me mais por estes ritmos.

3 – Qual o teu maior desafio/objectivo nesta profissão?

O meu desafio reside numa aprendizagem contínua das novas técnicas de DJ e num experimentalismo artístico associado à exploração das novas tecnologias associadas a esta actividade.

Não é fácil continuar a surpreender as pessoas. Em Portugal vivemos um período em que a riqueza discográfica ainda é suficiente para satisfazer o apetite das plateias mas noutros palcos a história já é diferente.

Também gosto de partilhar conhecimentos e ajudar à formação de novos talentos. Daí apostar na formação contínua de DJs desenvolvendo iniciativas que visam cativar e motivar potenciais DJs.

4 – É difícil ser-se DJ em Portugal?

Sim!

Na maioria das vezes o valor desta actividade não é devidamente reconhecida pelos agentes promotores de eventos / gerentes de discotecas.

Este é um problema que tem maior expressão em vertentes menos mediáticas e massificadoras, como é o caso da música latina, mas que também se faz sentir no mundo electrónico.

Confesso que é complicado lutar pelo reconhecimento do nosso trabalho uma vez que os DJs ainda não são encarados como figuras de grande relevo. Mais facilmente se investe numa apresentação de um par de bailarinos do que de um DJ. Respeito muito o trabalho dos bailarinos mas acho que os nossos DJs estão subvalorizados (e o esforço orçamental para comprar música é mais que muito!)

5 – Que critérios utilizas na escolha musical, mediante o local e o tipo de “bailarinos”?

Noites regulares em discotecas de música latina equivalem, normalmente, a um trabalho mais diversificado e mais ecléctico. É necessário pensar a vertente comercial da casa e na continuidade do seu sucesso como local de diversão e entretenimento. No entanto, existe sempre espaço de manobra para interferirmos artisticamente na selecção musical. Mostrando coisas novas e diferentes, surpreendendo os bailarinos com temas de sucesso que já estavam esquecidos, etc.

O meu filtro principal é a pista de dança. este é o meu barómetro de eleição e através da análise constante dos bailarinos que vou seleccionando as músicas que coloco.

No entanto, se vou colocar música a eventos específicos como congressos ou festivais de música latina, tento passar a minha mensagem. Ou seja, tento mostrar o meu estilo, a minha técnica e as minhas tendências musicais.

6 – Como encaras a dança na tua vida?

A dança já é um dado assumido no meu quotidiano.

Apesar de não dançar muito (passo muito tempo de volta dos discos) adoro expressar-me através desta linguagem.

A dança é algo de fantástico mas chamo sempre atenção para a música…pois esta tem o infortúnio de cair frequentemente em esquecimento. Isto é importante pois se se dançar em função da música o prazer é ainda maior!

Não me preocupo em aprender muitos passos. Gosto de desfrutar desta cultura e isso dá-me uma enorme sensação de bem estar.

7 – A simbiose da música e da dança foi o tema de um workshop que deste recentemente. Achas que os “bailarinos” têm noção dos tempos e estilos musicais?

Acho que a pouco e pouco estamos a despertar para essa questão.

Vejo que é cada vez mais frequente ver os professores de dança e os alunos preocupados com estas questões básicas (mas de extrema importância).

São cada vez mais as iniciativas na área da formação e interpretação musical e isso demonstra a crescente procura por este tipo de informações, eu diria, mais detalhadas.

Adoro poder contribuir para uma melhor compreensão destas matérias mas tento sempre passar a mensagem de que o importante é crescer de uma forma saudável.

Independentemente da música ser uma salsa cubana ou porto-riquenha, para mim, é preferível ter uma pista repleta de pessoas que emanam felicidade e prazer do que poucos bailarinos a dançar. O importante é que todos nós sejamos felizes…à nossa maneira!
Hugo Leite
8 – Qual a tua principal referência como DJ?

Durante estes anos dedicados à música latina tive várias referências, como: Maurício Araújo, Alexis Rodriguez, Júlio Almeida, Vítor Soares, Nuno Melo, entre outros.

Desde o início desta década que sou grande apreciador do trabalho do DJ Pablo Marielli (DJ Bat). Certamente um dos melhores DJs mundiais desta área, tem um trabalho técnico irrepreensível e uma cultura discográfica de fazer inveja a qualquer um.

Uma referência e um modelo a seguir.

9 – Qual foi o evento em que foste convidado que te deu mais prazer? E qual gostarias de participar um dia?

Até ao momento, a ocasião que me deu mais prazer colocar música foi durante a primeira visita do DJ Bat ao Muxima Bar (Porto).

Foram duas noites extraordinárias onde o ambiente acolhedor e familiar do Muxima proporcionou o desenrolar de duas sessões de música verdadeiramente loucas, com imensa energia e originalidade.

Foi uma honra poder apresentar o Pablo Marielli ao público do norte e partilhar a cabine com ele.

Apesar de já ter tido a oportunidade de colocar música em festivais como o Congresso de Lisboa (por três ocasiões) e o Salsorro (duas ocasiões), estas duas noites no Muxima aproximaram-se do meu ideal de diversão. Uma festa de amigos, com boa música e boa disposição.

10 – Qual a tua música, livro e filme favoritos?

Tenho mesmo que escolher? Eheh!

Músicas são muitas…muitas mesmo! Não dá para seleccionar apenas uma!

Livro…Talvez “O Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa.

Filme…Deixando muitos de fora: “The Sixth Sense (O Sexto Sentido)”

11 – Nos tempos livres, o que gostas mais de fazer?

Gosto de estar com as pessoas de quem gosto muito e que, por vezes, não recebem de mim o carinho devido.

12 – Para concluir, nestes anos que tens de DJ, tens alguma história engraçada que queiras partilhar?

São várias as histórias engraçadas, desde confundirem-me com o DJ Luís Leite, discutir comigo por eu não colocar salsa, enfim, algumas situações caricatas que certamente merecem pequeno ensaio. Eheh!

À equipa do site SalsaBraga devo agradecer o amável convite e felicitar pelo excelente trabalho que tem feito pela divulgação da dança e música latina em Braga e no norte de Portugal.

Que continuem com muita força e com muita salsa!

Vemo-nos muito em breve.


Pedro Barros

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